Barcos de Papel

Barcos de Papel

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           Trancado no quarto ele dobrava, dobrava um, dois, três, quatro… Dez, vinte, trinta, quarenta. Sua existência se resumia a dobrar barcos de papel, aqueles pequenos navios de mentira que se dissolviam na água. Frágeis assim como ele, como pequenas borboletas atraídas por uma lâmpada a óleo.

            Há muito tempo tinha aprendido essas dobras, para lá, para cá, volta, vira e aí está um barquinho de papel em perfeitas condições de flutuar por fugazes instantes. Foram mãos femininas que o ensinaram a dobrar, mãos com unhas bem cuidadas e dedos manchados de tinta, brancas. Branco papel manchado de tinta, branca mão manchada de tinta. Ele construía barcos que navegavam e ela navegava em barcos de papel que não iam a lugar nenhum.

            Estranha relação que se configurava: barcos de papel que derretiam na água e borboletas atraídas por lâmpadas a óleo. Ele, os barcos; ela, as borboletas. Todos tinham fim ao alcançar o que almejavam. Homens tentando roubar o fogo dos deuses. Fadados ao erro. Eles eram o não. Não falavam, não tocavam, não estavam realmente ali. Nunca estiveram.

            Barcos de papel derretendo na água do mar, borboletas incineradas em lâmpadas a óleo. Não iriam a lugar algum.

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Vamos fugir de casa?

by: https://twitter.com/RELATlONSHlP/status/438905086988017664/photo/1
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A garota acordou no meio do nada, para norte ou sul só se via estrada e campos vazios. Amanhecia devagar a leste, o mundo transformava-se em uma fotografia antiga em escalas de cinza só com um leve tom de rosa bem ao fim do mundo. Ele já estava de pé enquanto ela ainda aproveitava a dormência do sono na traseira da caminhonete.

– … – olhou-a de lado, queria saber como ela estava… Se tinha dormido bem sem conforto nenhum, sem casa nenhuma, sem nada conhecido ou comum. Não precisava preocupar-se. Estava bem. Estava vazia e esse sentimento de vazio era a melhor coisa que já tinha sentido nos últimos tempos.

O vazio que sentia o assustava, mas não a garota. No silêncio da madrugada o ruído dentro de si era tão alto que se surpreendia da garota não o escutar também; o barulho da casa que deixou era tão alto que nem fazia ideia dos ecos dentro de si.

Espreguiçou-se sentando onde dormira e enrolada na velha manta pôs-se a observá-lo. Ele não esta feliz. Virava a face para cada ponta da estrada como se a espera de alguém. Não esperavam, esse projeto era só dos dois. Procurava, ele, alguma coisa que não encontrava aqui. Que talvez aqui também não estivesse.

Ela agora o observava. Sentia-se constrangido e sabia que ela sabia como se sentia. Sabia que ela sabia seus pensamentos. Os deles ou os dela. Tanto fazia. No fundo haviam perdido as fronteiras entre o ela e o ele, poderia estar pensando os pensamentos dela e ela os dele; o que achava ser si na verdade seria ela e ela o era.

– O que faremos agora? – não havia dito o onde, ele não precisava que ela o lembrasse de ondes, pois o via mexer os lábios em um monólogo silencioso. Precisava ele que ela o tirasse daquele lugar como ele a tirara do dela na noite passada. Ela então o fez, porque era assim que ele e ela eram.

Ele gostaria de socar o tolo que colocara no livro a mulher como perdição do homem se ali, como antes, ela o salvava de si próprio. O resgatava para a realidade como ele a resgatara da casa dos pais. Não poderiam ficar ali no meio da estrada, choveria e a caminhonete não era abrigo… Sentiriam fome, não a fome que sentiam em suas casas ou mesmo a que os abatia na cidadezinha. Mas a fome primitiva, primal, que assola todos os seres do planeta por igual – Não sei.

– Não precisamos decidir agora. – esse era o alívio, não precisava decidir nada agora nem depois. Não que temesse ter que tomar a decisão por ele naquela estrada, ali tudo era válido. Temia era as decisões que só possuíam uma resposta certa. Seu desejo era dominado pelas erradas, mas se via tendo que tomar as decisões certas e isso a matava porque a vida não era sua. Teriam que se mover, afinal ela o conhecia e sabia que não era silêncio, logo o medo que tinha de si mesmo o faria sentir falta dos seus e os obrigaria a voltar. Ela não queria isso.

– Não, não temos. – não, não tinham que decidir, pensava. Não tinham que revelar, falar ou interpretar, simplesmente sabiam um ao outro, portanto ali eram quem queriam ser. Sem dever explicações a ninguém, sem ter de decidir se serem o que eram feriria alguém. Sem se preocuparem com ninguém, só com eles mesmos. Não desejavam fazer nada por ninguém, mas também não queriam que ninguém fizesse nada por eles a não ser que os deixassem serem livres.

O problema era que ninguém os permitia, por isso fugiram e agora ali estavam. Só não era uma encruzilhada literal porque a estrada ali não se unia a nenhuma outra. Estranho e engraçado que para quem deseja escolhas eles tivessem escolhido uma estrada que só levava a um lugar, para ele ou fora dele. O importante consistia em deixar a cidadezinha, o lugar que nunca seria a casa que desejavam.

– Tá com fome? – foi ele que falou desta vez, o estomago da garota roncou suavemente. Riu – Tem biscoitos no porta-luvas.

– Tem café no porta-luvas? – ela brincou e ali no nada o riso ocupou o espaço que na cidade era das pessoas – Vamos seguir em frente, toda cidade tem uma padaria, por menor que seja.

– Mas temos biscoitos! – exclamou ele para ser recebido com o característico erguer de sobrancelhas dela.

– Você sabe que eu não amanheço sem café. – desceu da caçamba e juntos entraram na cabine, partindo na direção em que o sol se levantava.

Vinil Record’s – Birdy

Birdy (Jasmine van den Bogaerde), é uma cantora inglesa. Ela ganhou a competição de música Open Mic UK em 2008, com 12 anos de idade. A sua versão de “Skinny Love” de Bon Iver foi lançada em janeiro de 2011, atingindo o Top 20 da UK Singles Chart e em alguns países da Europa. Fonte: Wikipédia

Não sabia nada disso sobre essa garota fantástica, descobri por acaso nas indicações do YouTube e estou apaixonada.

Birdy – People Help The People

Birdy – All You Never Say

Bird – Wings

As músicas dela tem um quê meio romântico e melódico que me lembra um estilo mais suave do Nightwish e de Alanis.

 

Sonhos Despertos – Introdução

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Juntou as pontas dos lençóis com pregadores de roupa às extremidades da cama, ergueu um mastro de livros e hasteou sua bandeira feita de meia velha. Foi navegar.

Naquela manhã o dia nasceu cinza no mundo do apartamento. O sol não espreitou tímido pelas janelas cobertas de persianas e todos perderam um pouco a hora, por isso ninguém que importava tinha paciência na parte da manhã… Quer dizer, ele ainda a tinha, mas ele não importava. E o café desceu amargo diante do prelúdio da terceira guerra.

            Leu a Ilha do Tesouro. Leu Peter Pan. Na noite anterior ao dia lembrou que fora pássaro. Podia voar.

No prédio quadrado de todos os dias os sonhos eram podados, envazados e adubados como bonsais. Podiam crescer e talvez frutificar, mas apenas do jeito que os jardineiros permitiam. Quatro cantos, quatro cantos que o prendiam. Tinha medo e cansaço dos outros, apesar de ainda não ter idade para ser levado a sério. Talvez isso não fosse tão ruim assim.

            Abriu a janela e deixou que as estrelas entrassem no quarto, conversou com cada uma delas. Oceanos em galáxias. Mares de poeira cósmica. Ilhas de planetas. Nuvens navegáveis. Cometas propulsores. Por via das dúvidas levava junto uma cópia do Pequeno Príncipe, nunca sabia quem poderia encontrar. Talvez as estrelas rissem para ele.

Naquela tarde não tinha fome, mas comeu. Naquela tarde os lados se enfrentaram. Naquela tarde a parede direita encontrou-se com a esquerda. A poeira subiu e ele chorou. Chorou sem importância enquanto a gente séria brigava na sala de estar. A gente séria que um dia tinha afirmado se amar. O colocaram no mundo sem nem perguntar.

             Prendeu no pijama a espada de plástico. Dobrou a lição e ali estava o chapéu. Chapéu de almirante.  Estendeu o cobertor entre o mastro e a cabeça. Esperava o vento para sua vela.

Na noite que se seguiu a tarde brigaram de novo os sérios. Ruídos abafados. Batidas ocas. Ele sozinho. Ouvia. Não entendia.

            A lua debruçou-se na janela aberta. Beijou-lhe a testa. Lá estava o menino levado soprador. Sopra a dor. Pode ser que você, gente séria, não acredite. A cama levantou vôo quando a vela-cobertor se inflou. Saiu flutuando cama e menino pela janela aberta em direção ao mar do céu.

A arrogância segundo os medíocres

AnsiaMente

Por Carmen Guerreiro

“Adorei o seu sapato”, disse uma amiga para mim certa vez.

“Legal, né? Eu comprei em uma feira de artesanato na Colômbia, achei super legal também”, eu respondi, de fato empolgada porque eu também adorava o sapato. Foi o suficiente para causar reticências  quase visíveis nela e no namorado e, se não fosse chato demais, eles teriam dado uma risadinha e rolariam os olhos um para o outro, como quem diz “que metida”. Mas para meia-entendedora que sou, o “ah…” que ela respondeu bastou.

Incrível é que posso afirmar com toda convicção que, se tivesse comprado aquele sapato em um camelô da 25 de março, eu responderia com a mesma empolgação “Legal, né? Achei lá na 25!”. Só que aí sim eu teria uma reação positiva, porque comprar na 25 “pode”.

Experiências como essa fazem com que eu mantenha minhas viagens em 13 países, minha fluência em…

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