Vamos Fugir de Casa?

Vamos Fugir de Casa?

Parte 3 – Sandra Dee

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Carros passavam em alta velocidade pela estrada enquanto o sol incendiava o asfalto fazendo com que um bafo quente subisse em ondas pelos pastos e poucas casas da região, uma brisa gerada pelos carros agitava as lâminas de grama onde a caminhonete estava parada. Sanduíches haviam sido devorados à sombra de uma das poucas árvores do local e eles agora descansavam em uma canga estendida sob ela.

Buda e Ganesha lado a lado no fundo laranja enquanto o rádio do carro tocava alguma velha canção em inglês sobre jovens que se achavam heróis e acabaram indo longe demais. A garota se esticava como um gato, às vezes esticando as pernas e dobrando os braços outra o contrário, tendo como travesseiro sua própria jaqueta enquanto ele recostava a cabeça no abdômen dela.

O celular vibrava de quando em quando, mensagens se acumulavam na tela. Mensagens de quem se importava e de quem ela queria fugir, mensagens da mãe e de outro alguém. – Não vai responder?

– Não.

– Uma hora vai ter.

– Eu não vou não, nós vamos fugir até o pôr do sol e seremos felizes para sempre. – a garota esticou os braços abrangendo o céu acima e sorria, ela sabia que falava besteira… Coisas que nunca poderiam acontecer realmente, mas era bom fazer planos loucos e acreditar um pouco que dariam certo. Como fugir de casa numa madrugada fria de maio junto do seu melhor amigo e abandonar todos os seus problemas em uma lata de lixo pelo caminho.

– Não te entendo.

– Sou mulher, não sirvo para ser entendida… Perderia toda a graça. – ela riu e ele revirou os olhos, desviava do assunto que não a interessava como sempre. Ele conhecia o jogo e quanto podia insistir antes que ela se enfurecesse e falasse de uma vez ou calasse para sempre, conhecia o porquê do mistério que ela se fazia ser.

– Era só dar uma resposta. – insistiu – Três alternativas: Sim, não ou talvez. E não existia erro.

– Sempre há erro. – sentou-se desalojando o rapaz e observou a auto-estrada – Se responder sim um de nós pode se arrepender, na hora ou no futuro. Quanto ao não a mesma coisa. E o talvez… É o mais perigoso de todos, experimentaremos, criaremos esperança e nos acostumaremos um ao outro como me acostumei a você. Então ficaremos na segurança do talvez e nunca seremos nada mais até um dia nos afastarmos tanto um do outro que nunca mais nos encontraremos e teremos sido apenas uma possibilidade.

Ele a observava, era confusão e era medo os dois juntos não soavam boa combinação. A garota que vestia uma capa de confiança ao encarar os medos e problemas dos outros como seus, que não temia abandonar o único universo que conhecia hesitava em arriscar suas chances quando se tratava de ser uma garota. De certa forma era por isso que combinavam, opostos e espelhos um do outro ao mesmo tempo. Ele ela e ela ele, todos os problemas que partilhavam se originavam aí.

Ele conhecia a história, a moleca do avô que brigava na escola e escalava árvores não sabia o que fazer quando começava a desenhar corações alados nas bordas do caderno e corresponder aos sentimentos de um rapaz que não fossem socos no intervalo. Ele se ressaltava como uma ferida, ligeiramente feminino na própria natureza, magro demais, gentil demais e ela um próprio cavalo desembestado correndo atrás do próximo prêmio. Opostos complementares e espelhos ressaltando o defeito um do outro, par perfeito e almas gêmeas… Claro que nunca seriam mais do que amigos-irmãos, bem que poderia tentar. Muito mais fácil ficar com alguém com quem não precisa falar para ser entendido, cujos gestos se unem em sintonia como um salto ornamental. Porém gêmeos que por mais que tentassem só encontrariam a morte se tentassem se tornar siameses.

– Qual é a viajem agora?

– O quê?

– Você ficou quieto aí um tempão, pensava em quê?

– Que você deveria deixar de ser besta e responder as mensagens dele.

– Sem graça, se eu tenho que fazer isso você deveria ter que juntar os colhões que tem e falar com teu pai.

– Nunca!

– Deixa de besteira! – ela se irritou e ficou de pé – Você sabe que nunca vai se sentir bem se não contar a eles e aí arcar com o que vier… Você se sente mal por tê-los deixado e no fundo queria era que te expulsassem para poder ir em paz para a capital! – gritava, os carros diminuíam um pouco para observar a maluca gritando no meio do nada.

– E você que por mais desculpas que arrume sabe que saiu mesmo para não ter que decidir o que fazer consigo mesma! Fugiu covardemente dele!

– Cala a boca!

– Você tem medo que ele te machuque! Que não seja capaz de te ver como a mulher que é e por isso finge que está tudo bem em ser só um cara para ele!

O sol descia no horizonte e o calor do asfalto não conseguia mais atingir o pasto, uma brisa fria arrepiava os pelos dos braços e os fazia desejar um abraço. Silêncio, ela recuperou a jaqueta e a canga ele os restos do almoço tardio e o celular dela, o qual entregou bruscamente enquanto as mensagens pipocavam na tela iluminada. O nascer do sol em uma madrugada fria trazia novos caminhos, o pôr do sol de agora ressaltava velhos hábitos e erros de sempre e não havia música na caminhonete quando esta se pôs na estrada novamente.

O Sonho de Eva

 

Primeiramente, o que o leitor precisa saber: Eva era o terror da cidadezinha onde morava, afinal ela não era normal e pior, não o era por escolha própria (como as senhorinhas costumavam pensar) por isso andava toda de preto em pleno verão com botas e pulseiras de tachas. Eva não ia à igreja, isso por si só já alimentava todos os boatos que circulavam.

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O Sonho de Eva

 

Eva, apesar do nome bíblico, não acreditava em deus. Era ela uma mulher dos livros, sua igreja era as fileiras de estantes empoeiradas repletas de livros das bibliotecas. Seus deuses e santos? Os filósofos e pensadores, a evolução de Darwin e que apenas o homem é o lobo do homem.

Feliz de quem é livre para ir onde bem entender sem se preocupar com céu ou inferno nem levar a sério filmes de terror, se auto-determinar é um direito de poucos nesse mundo de cristãos, católicos, mulçumanos, judeus etc; todos eles brigando sobre quem está certo ou errado, quem tem direito a terra santa e por quantos seguidores cada um tem.

Eva acredita no pó, nos átomos, nas partículas mínimas que formam tudo quanto existe no mundo e quando tudo morrer as partículas se separarão e voltarão ao princípio para criar a vida novamente.

Assim tudo estava bem enquanto o sol brilhava no céu, porém quando a noite caía e Eva se via em sua cama sozinha, ela pressentia a necessidade de não estar tão só e a cama com alguém dividir. Queria então acreditar em algo maior para não ser responsável por tudo que fazia.

Por que isso acontecia? É que a noite e a cama vazia lembravam a Eva que não amava, não era capaz. Amava só os livros que tinha seus únicos companheiros e caros tesouros. Só eles a entendiam, de resto era sozinha por não compartilhar com o mundo a crença que o mundo tinha.

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O quarto estava à meia luz, pelos recantos abertos da cortina o farol dos carros passavam pelo vidro e distorcia imagens na parede. Havia memórias infantis pelo lugar, a boneca no alto da estante que assumia ares assustadores, os bichos de pelúcia em monstros imaginários de criança. Eva se revolvia na cama, os lençóis embaraçavam em suas pernas e se enredavam em seu corpo pendendo-a. Os cachorrinhos estampados no edredom corriam e ladravam como se assustados com algo. Eva sonhava.

A sua estante repleta de livros, os que gostava-amava e os que era obrigada a ler pela escola, as poltronas marrons e antigas, o lustre velho e verde. Tudo adquirira um ar mais vivo, interessante, mais real que a própria realidade.

Sentado confortavelmente como em sua própria casa havia um homem belo, tão belo quanto o mais recente galã das adolescentes. Olhos dourados como o mais claro amanhecer perfuraram seu corpo chegando à sua alma e percebendo seus mais perfumados profundos pensamentos.

– Quem é você? – Eva nunca o tinha visto antes, mas tinha a impressão de já o conhecer, de certa forma aquela pergunta não fazia mais sentido.

Ele sorriu, apenas um sorriso sedutor como uma lâmpada para uma mariposa – Ora Eva, você me conhece já… Sabe o que sou. – os olhos brilhavam e ela sentiu raiva, o uso do que em lugar do quem lhe passou quase despercebido.

– O que você quer comigo? – um ligeiro pressentimento de que já sabia surgiu, mas não conseguia acessar o canto de sua mente em que tal informação estava gravada.

– Não sabe? – o sorriso em seu rosto adquiriu um ar ligeiramente assustador como um lince – Deus, Eva. Deus.

– Deus? – foi a sua vez de rir – Não existe! – declarou do alto de sua empáfia – Um conto de fadas para enganar crianças… Dar-lhes um motivo para serem boas! – sim, ele certamente estava assustador agora. Não gostou de sua resposta.

– Deus, Eva, Deus… – os olhos do homem se estreitaram, pareciam os de uma serpente. Apenas pequenas fendas brilhantes – Você acha que Ele gosta de ouvir isso? Contos de fada, Eva?

Eva não percebia o perigo que começava a se formar ao seu redor – Você exagera, é mais um daqueles fanáticos que ficam gritando no meio da rua com uma bíblia na mão. Acreditar em deuses é para os fracos que precisam pôr toda a responsabilidade de suas vidas em alguma coisa ou alguém.

– Então por que grande parte da humanidade acredita Nele, Eva?

– Porque a humanidade é fraca, precisa culpar alguém pelas suas mazelas, seus erros e também pelos seus sucessos. Ou então enlouqueceriam sob o peso de suas próprias vidas em suas cabeças! – Eva estava decidida a vencer essa discussão, do mesmo modo que sempre debatia com o professor de religião do colégio de freiras onde estudava. Não iria ter medo, ela não era um dos fracos que precisavam de um responsável por suas vidas.

– Sim, Eva, a humanidade é medrosa e, em parte, é assim que Ele os quer. É como Ele consegue adeptos. – no sorriso cruel que se abriu, Eva notou que os dentes brancos e perfeitamente alinhados eram pontiagudos. Estranhou, mas achou melhor nada falar – E na morte você acredita?

– Não zombe de mim! – tocou em seu ponto fraco, pois Eva temia a morte mais do que tudo pois, para ela, a morte era uma incógnita, um mistério a ser desvendado que a repelia ao mesmo tempo que a atraía, como mariposas para a chama de uma vela – Tudo tem seu fim nesse mundo, até mesmo as coisas que nos parecem eternas… Isso é algo natural, fora o velho e que venha o novo! – talvez se brincasse seu desconhecido visitante não perceberia seus tremores.

– E no inferno, Eva? Nele você acredita? – aquele homem era só sorrisos?, pensava Eva, afinal desde o primeiro momento ele era uma mostra de todos os tipos de sorrisos, agora ele trajava o modelo irônico.

– Inferno? – quase engasgou, havia um riso entalado em sua garganta e ela achou que ele parecia interessante – Outra invenção que a igreja criou para difundir sua ideologia entre os homens e forçá-los a obedecê-la para aumentar seus poder. O medo do desconhecido e do sofrimento é o que alimenta a fé das pessoas. Elas precisam acreditar que irão para algum lugar… Até mesmo um lugar de dor e sofrimento é melhor que o nada para elas! Terem uma certeza no que lhes é incerto. Céu, inferno… São reflexos da mente humana para representarem prêmios ou punições pelo que fizeram em vida. Para poderem acreditar que suas ações insignificantes possuem um reflexo maior em suas próprias vidas e no mundo.

– Eva, Eva… – balançou a cabeça para os lados como se ouvisse as “grandes” conclusões sobre o mundo de uma criança pequena e ignorante – Você acha que sabe muito da vida e do mundo, mas dezesseis anos solares não é tanto tempo assim… – ele sorria com pena – É o mal dos jovens acharem que conhecem todas as regras do mundo, só que o jogo mal começou de verdade para vocês! O inferno existe, Eva! E poucos são os afortunados que só o conheceram na morte! – os olhos do homem se tornaram vermelhos, chamas pareciam arder em cada um e gritos escapavam de suas pupilas negras.

A sala da casa de Eva parecia se alongar e distorcer-se, as cores agora lhe doíam a vista de tão vivas, já não era mais tão real. Ela sabia que era sonho ou visão, como os que tinha quando criança e via esqueletos brotando do chão. Poderia acordar quando quisesse…

– Você pensa que está no controle Eva, mas a vida é um tabuleiro de xadrez e as peças são vocês. A nós cabe transformá-las em negras ou brancas, definindo o lado do tabuleiro em que jogam.

– A vida é um jogo, mas não de xadrez! As peças não são só pretas ou brancas, há toda uma variedade de tons que lhe são desconhecidos que cada um adquire pela vida.

– Eva, Eva, Eva… – ele olhou para as estantes e examinou atentamente cada título – Você acha que tudo o que se pode saber está contido nesse monte de lixo? Eles provam o quê, Eva? Que Deus e o Diabo não existem? Que céu e inferno são delírios da mente humana para se consolarem da injustiça do mundo? – gargalhou – Santa inocência criança!

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– Valem muito mais do que qualquer livro religioso! – exasperava-se – Quem os escreveu foram pessoas cultas, pensadores que pesquisaram a fundo o tema de seus textos ou procuraram retratar com o máximo de fidelidade o seu tempo! Foi o jeito que encontraram de marcar sua presença no mundo!

– Besteiras Eva! – avançou enlouquecido para a estante e começou a derrubar os livros pelo chão – Eles só existiram porque Deus quis! Só escreveram tais coisas porque Ele soprou a semente da idéia em suas cabeças! E só foi assim por que EU os visitei e pus a prova, os fiz crer ou descrer! Porque eu sou O Mensageiro da Luz, Eva!

– Você é louco isso sim! Deixe meus livros em paz, pare de destruí-los! – Eva tentou impedi-lo, porém quando percebeu que o livro que tinha em mãos nesse momento relaxou – “A Ordem dos Templários”? – riu-se – Deste eu não gosto, rasgue a vontade!

O homem começou então a rasgar o livro e pisoteá-lo com tanto ódio contido que Eva quedou-se calada e estranhamente indiferente quando esta atitude passou para os outros livros, sua figura agora era assustadora. Uma aura vermelha brilhava a sua volta e algo como chifres brotaram de sua cabeça. Eva estava começando a entender aquilo tudo quando reparou no livro que o desconhecido começava a rasgar naquele momento.

– É “Um Conto Real”, deste eu gosto! – ela interrompeu e de que adiantara? Nada, ele o rasgou do mesmo modo e agora se aproximava de Eva bufando – Quem você pensa que é? – estava irritadíssima com este indivíduo que entrara em sua casa sem ser convidado e destruía seus preciosos livros. Em sua irritação, Eva, olhou para os pés da figura e constatou que eram patas de bode.

– Você é… Você é… – definitivamente assustada agora – Você é o… – ele se aproximava aos poucos com um sorriso sádico no rosto.

– Isso mesmo, Eva! – já se encontrava a apenas dois passos dela – Isso mesmo… Eu sou o Diabo, Eva!

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Queria correr, queria gritar e se agarrar na barra da saia de sua mãe, seu coração parecia parar de bater e sabia que ia morrer – Se você é o diabo, por que defende a crença em deus?

– Porque meu nome é Lúcifer, Eva. Deus é onipotente e supremo, se ele assim o quisesse eu não existiria. Mas o que é o bem sem o mal? Eu sou Seu melhor seguidor, Eva. Sua idéia mais brilhante, Seu pregador supremo! Eu sou a espada que Ele criou para converter os ateus e ameaçar os crentes! Cabe a eu ser o motivo para as pessoas irem até Ele! Eu sou Lúcifer, a Estrela da Manhã! Seu amante e Seu igual! O favorito entre os elevados! – quando ele estava prestes a tocá-la Eva se joga aos seus pés e os agarra com toda a força que possui.

– Perdoa-me Satanás! Perdoa-me! Perdoa-me Lúcifer, a Estrela da Manhã, se não creio! Se não creio em ti nem em teu senhor! – a realização da presença dele a assustara tanto que perdeu qualquer compostura que poderia possuir. Como ele nada mais fez a calma foi novamente se apoderando do seu ser até estar forte o suficiente para responder.

– Perdoa-me, mas se não creio não é minha culpa. É dele e é sua que muito bem me poderiam convencer se o quisessem!

Lúcifer sorri – Para que acha que estou aqui, Eva? – todos os dentes aguçados se mostravam agora – O cálice transbordou, a última gota que cabia já foi derramada! Ele não tolerará sua descrença e ofensas! – segurou-a pelos ombros pondo-a de pé – Ergue-te Eva e olhe nos olhos de Deus!

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                Eva acorda, sentando-se assustada na cama com sua respiração acelerada e na porta do seu quarto ele se encontrava sorrindo. Fechou os olhos e respirou profundamente, quando tornou a abri-los não havia mais ninguém lá, apesar de ainda conseguir sentir sua presença.

– Fui vencida, bem sei Lúcifer! Fui vencida porque Ele criou a noite, o medo e a solidão; porque criou a caixa de pandora e fez com que fosse aberta, pois só assim se faria senhor. Esta noite vocês venceram, portanto deixem-me em paz para poder dormi-la sem me preocupar com deus ou com diabo.

O escuro do quarto se intensificou e a imagem do Estrela da Manhã ainda grava nas pupilas de Eva sorriu presunçosamente de seu lugar na porta do quarto.

O diabo tão estigmatizado pela fé cristã é, na verdade, seu maior defensor. Afinal é ele que “pune” os pecadores a mando do seu senhor, se fosse realmente um inimigo e não um auxiliar não estaria executando tal função.

All Stars Are Falling Down – Um libelo sobre Gaza e a crueldade humana

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            Uma linda fotografia do por do sol, certo? Não. Não é, é um míssil israelense atingindo Gaza. Durma com isso.

            Em 1922 o sol se punha na região de Gaza que após o fim da 1ª Guerra Mundial e a dissolução do Império Otomano passou a ser administrada pela Grã-Bretanha, até a presente data alguns conflitos entre palestinos e judeus já ocorreram em Jerusalém e Jaffa. O dia 22 de julho do presente ano amanhece sobre você, os britânicos realizam um censo no seu país. Quem é você dentre os 757.182 habitantes? Está dentre os 78% de muçulmanos ou os 11% de judeus? Pode ser aparentemente irrelevante, mas em menos de meio século tal fato vai selar o seu destino.

            No decorrer da década de vinte judeus continuam imigrando e somam 16% da população, se você for um deles estará ocupando apenas 4% das terras do seu novo lar.

            Quando o sol nasce para a década de trinta os Estados a sua volta estão se tornando independentes e na sua casa os conflitos continuam se tornando mais violentos. Hitler assume o poder na Alemanha e implanta medidas anti-sionistas causando o aumento da imigração judaica para a sua terra. Você está aliviado que seus irmãos escaparam de um destino terrível? Ou tudo o que vê é apenas mais pessoas chegando para habitar uma área de poucos recursos?

            A década de trinta vai seguindo seu curso e no ano de 1936 o que eram pequenos conflitos localizados se transforma em uma revolta. Há descontentamento com o Mandato Britânico e você que sempre habitou essa terra sente que ela está sendo colonizada pelos imigrantes judeus! Ela já era sua antes de eles chegarem! Inicia-se o movimento nacional palestino e antes que a década termine este se vê derrotado. Há repressão por parte do governo, a elite política palestina está enfraquecida… Ouve-se boatos sobre a partilha do território e de transferência populacional, boicotes contra os palestinos ocorrem enquanto a economia judaica prospera e a milícia sionista transformou-se em um verdadeiro exército.

            Conseguiu dormir noite passada? Tudo depende do lado em que você nasceu, mas as coisas estão melhorando. Pensam em atribuir 33% do território aos judeus e agora a imigração só acontecerá ao acordo dos habitantes árabes. Finalmente terá paz.

            Estamos em 1947 e a notícia das atrocidades ocorridas na Alemanha se espalha pelo mundo, mas, veja só, seu país vai se tornar independente! A Grã-Bretanha renunciou ao mandato! Espera, não solte os fogos ainda, estão falando em partilha novamente… 55% para eles e 44% para você… Essa não era a sua terra? Tudo bem, tudo para dormir a noite e coitados dos judeus! Eles perderam mais do que uma porção de terra.

            Você está com medo, escuta coisas estranhas nas ruas. Plano Dalet, invasão das bases militares britânicas e limpeza étnica dos palestinos para a criação de um estado judaico. Esta noite você não dorme.

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            Estamos no segundo semestre do ano de 2014 e você se esqueceu de como é ter uma boa noite de sono. Mísseis caem pela Faixa de Gaza, onde você habita. Não há empregos para todos, não há comida, não há água suficiente e morrem-se as centenas por dia. Eles procuram o Hamas, mas atingem escolas, hospitais e áreas residenciais. Você os odeia, sua casa foi atingida e hoje vive em um abrigo da ONU com o que restou da sua família. Você odeia o Hamas por ter piorado as coisas, mas você sabe que se não fosse por eles não teria como sustentar sua família… Há luzes no céu. Estrelas caindo.

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Vamos fugir de casa?

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Parte 2 – Padaria

            Café fraco. O homem pode ser fraco, a mulher, o prédio, o carro ou o político. Só o café que nunca na vida pode ser fraco, café fraco é sexo sem tesão, amor sem paixão e tu sozinho em um busão lotado. Café fraco é poesia escolar, acordar sem ver o sol e dormir sem masturbar. Café fraco é tudo o que quem não te merece acha que você merece. É morrer sem ter vivido, é o beijo que teu pai dá na tua mãe antes de dormir e é o que havia na xícara dela para se beber. Era só o que tinha na padaria, café fraco de coador adoçado demais. A melhor abertura depois do prelúdio daquela aventura dos dois, café fraco como na casa dela… Estrangulado demais para ser forte.

             Ele o bebia com leite e um pão na chapa era feito para ser dividido. O rapaz estava acostumado à fraqueza do café, afinal a lotação de sua casa impedia que café algum pudesse ser forte e ele gostava assim. O café fraco era-lhe reconfortante, tinha gosto e aromas de casa… Era a época mais fácil, onde tudo era calmo e bom. Onde o mundo terminava no quintal, preocupações e segredos ainda não existiam, quando ainda não se diferenciara dos irmãos.

            Pessoas desconhecidas entravam, comiam, bebiam e saíam; ali os dois eram anônimos. Ninguém deles nada sabia e eles não sabiam nada de ninguém. A privacidade era total mesmo se estando a vista, não precisavam se esconder. Não precisavam também se conhecer, bastava ser e o ser bastava. Em alguma terra que não esta essa situação receberia o nome de liberdade.

            Apesar do café não ser do seu gosto o dia até que avançava pacífico e pacífico poderia continuar, a garota soube em um instante que seu inconsciente a traíra. Pensara de repente, concluíra subitamente que não mais precisariam um do outro como um afogado anseia por ar ou um alcoólatra pela próxima dose. Na cidadezinha os dois permaneciam unidos pela necessidade de sobrevivência, afinal um era a liberdade do outro! Mais que ar, mais que comida… Eram o espaço em que o outro podia existir. Se liberdade era o que agora viveriam nãos mais precisariam de substitutos móveis.

            Deixaria de ser necessária a ele e ele a ela, se afastariam logicamente com a rapidez de placas tectônicas. Triste isso seria, mas a questão era se necessitariam um do outro nessa nova realidade. Talvez fossem mais sinceros em seus sentimentos se não precisassem um do outro e estivessem juntos por mero apreço. Poderiam, por decorrência do destino, acabarem só se telefonando no natal. Completos estranhos.

            – O pão de vocês! – foi a garçonete de idade indefinida deixando o prato de limpeza duvidosa na mesa entre os dois – É a primeira viagem do casal? – ali estava a acusação sempre repetida, um rapaz e uma moça não podiam estar juntos como amigos, como grandes amigos, tinham de ser namorados. O sexo tinha de estar envolvido.

            – Somos só amigos! – foi o que ela disse antes que ele sequer pudesse raciocinar a questão, a verdade é que havia grande tensão sexual da parte dela, mas também o era que da parte dele nada havia e ela tinha o conhecimento dessa verdade. Não queria era ouvi-la dele.

            Ele se encolheu ligeiramente no banco da padaria. O que para muitos não passava de uma pergunta inocente, uma forma de puxar conversa e se sentir íntimo com um completo desconhecido porque todo mundo teve um primeiro namorado, menos a bailarina… Para ele era uma acusação velada. Ela não era sua namorada, nunca seria. Nunca haveria de ter namoradas. Não as desejava era o problema, tomou mais um gole de café enquanto ela partia o pão na chapa para que comessem, pensou que seria mais fácil se pudesse estar com ela da maneira que os outros pareciam pensar que estavam. Não que pudesse, se pudesse não teria fugido de casa. Se pudesse não teria levado um soco nas costelas dado pelo pai, a mãe não teria chorado, o irmão não teria xingado e a irmã não teria dito que já desconfia. Se pudesse… Se pudesse talvez ficasse trancando no armário. Não podia.

            – Não pense. – ela falou, estendendo-lhe um sorriso e a metade do pão que lhe cabia – Não pense neles, eles não pensam em você.

            – O mesmo para você! – e eles brindaram com o café fraco que ninguém merecia e o pão na chapa que é a melhor coisa que existe na terra, principalmente depois de uma noite passada em lugar nenhum. Ela sorriu seus problemas pequenos se comparados, os de quem tem tudo e nada ao mesmo tempo. Sorriu dos pais que não se amavam, das cobranças que não poderia cumprir e do amor que vinha com um preço que tinha de sangrar para pagar. E os dois se amavam, de um jeito meio torto, meio desembestado de irmãos de mães diferente; ela tinha esquecido de que ele era ele, ela era ela, ele era ela e vice versa. Enquanto vivessem precisariam um do outro para salvarem-se de si.

Barcos de Papel

Barcos de Papel

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           Trancado no quarto ele dobrava, dobrava um, dois, três, quatro… Dez, vinte, trinta, quarenta. Sua existência se resumia a dobrar barcos de papel, aqueles pequenos navios de mentira que se dissolviam na água. Frágeis assim como ele, como pequenas borboletas atraídas por uma lâmpada a óleo.

            Há muito tempo tinha aprendido essas dobras, para lá, para cá, volta, vira e aí está um barquinho de papel em perfeitas condições de flutuar por fugazes instantes. Foram mãos femininas que o ensinaram a dobrar, mãos com unhas bem cuidadas e dedos manchados de tinta, brancas. Branco papel manchado de tinta, branca mão manchada de tinta. Ele construía barcos que navegavam e ela navegava em barcos de papel que não iam a lugar nenhum.

            Estranha relação que se configurava: barcos de papel que derretiam na água e borboletas atraídas por lâmpadas a óleo. Ele, os barcos; ela, as borboletas. Todos tinham fim ao alcançar o que almejavam. Homens tentando roubar o fogo dos deuses. Fadados ao erro. Eles eram o não. Não falavam, não tocavam, não estavam realmente ali. Nunca estiveram.

            Barcos de papel derretendo na água do mar, borboletas incineradas em lâmpadas a óleo. Não iriam a lugar algum.