Vamos Fugir de Casa?

Parte 4 – De Novo, a Estrada

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            O sol se punha em tons de roxo no horizonte e coloria a placa de boas vindas escondida em meio ao capim alto. A estrada serpenteava entre os morros baixos e a caminhonete no acostamento, faróis acesos iluminando pernilongos.

            O silêncio predominava entre os dois e no rádio a estática se misturava ao locutor da emissora local anunciando a mesma velha canção da qual não gostavam. Estavam quase de volta, alguns poucos quilômetros e entrariam na velha cidade… Na velha vida que levavam.

            – Voltamos… – ela suspirou deixando o corpo cair contra o encosto do banco – Sempre acabamos voltando. Em um milhão de vezes, em universos e linhas temporais diferentes, sempre acabamos voltando. – fechou os olhos, podia ouvir já os gritos de quando chegasse a casa e também via os olhos cinzentos desconhecidos de certo rapaz. O silêncio cansava-a, queria gritar. Gritar para todos todos os pensamentos que fluíam como corredeiras dentro de si, quebrar as grades e tabus da casa paterna e mergulhar no desconhecido do cinza daqueles olhos com a mesma audácia que mergulhava no da estrada.

            – Tão ficção científica! – ele – Esta vez foi mais longe. – mais longe. Desta vez. Talvez na próxima lua azul tentasse de novo. Era sempre assim. – Um dia ainda podemos conseguir.

            – Um dia? Talvez nunca. – ela olhava para a estrada – Porque somos os mesmo e continuaremos os mesmos, nunca vamos sair daqui porque nunca vamos mudar. Estaremos velhos, de dentadura e cabelos brancos, do jeito que somos permaneceremos. Para sempre os rebeldes da cidade, mas sendo o que somos e somos o que podemos ser por causa desta cidade da qual nunca conseguiremos fugir. No fundo nossa rebeldia não é tão rebelde assim, somos o que nos é permitido ser. O contraste da cidade, a exceção que confirma a regra sob a qual todos vivem.

            – Você sempre fica deprimida na volta…

            – Estamos de volta! Não é motivo suficiente? – suspirou – E você sempre parece ficar mais animado do que na partida, com mais certeza… Porque deixa de ser a realidade, ideias são perfeitas. Coragem só em sonhos!

            – E você é muito diferente, né? Por que não vai sozinha então? – ele bateu no volante – A verdade é que ambos temos medo de tudo, medo de sair, cair e quebrar a cara. Ouvir o maldito “eu te disse” de todos eles!

            – Grita! Grita mesmo! – elevou-se para ele igualmente espancando o painel – Grita até ficar rouco, até soltar tudo o que está preso dentro de você. Vai! Faz! Só não fica quieto, só não chega segunda-feira na escola com o olho roxo como se nada tivesse acontecido! Como se não tivéssemos fugido! Sente-se na igreja no domingo e peça perdão por tentar existir de verdade. Ser uma pessoa, ter respeito próprio!

            – Olha quem fala! Você também vai se esconder na segunda! Vai enfiar aquele moletom velho e fingir que não é uma garota! Fingir que não sente nada por ninguém, que as coisas que sussurram sobre você não te fodem!

            Ela o olhou nos olhos e algumas lágrimas talvez estivessem tentando cair. Ele percebeu. – Desculpa! – ela retirou o cinto, abriu a porta e saiu – Volta! Ei! Desculpa, volta aqui! Por favor! – ela foi andando pela estrada já escura, sozinha – Não vai assim! É escuro! Péra! Por favor! – a garota não estava mais no alcance da audição. O garoto fechou a porta e recostou-se no banco, naquela noite não voltaria para casa.

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