Parte 3 – Sandra Dee

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Carros passavam em alta velocidade pela estrada enquanto o sol incendiava o asfalto fazendo com que um bafo quente subisse em ondas pelos pastos e poucas casas da região, uma brisa gerada pelos carros agitava as lâminas de grama onde a caminhonete estava parada. Sanduíches haviam sido devorados à sombra de uma das poucas árvores do local e eles agora descansavam em uma canga estendida sob ela.

Buda e Ganesha lado a lado no fundo laranja enquanto o rádio do carro tocava alguma velha canção em inglês sobre jovens que se achavam heróis e acabaram indo longe demais. A garota se esticava como um gato, às vezes esticando as pernas e dobrando os braços outra o contrário, tendo como travesseiro sua própria jaqueta enquanto ele recostava a cabeça no abdômen dela.

O celular vibrava de quando em quando, mensagens se acumulavam na tela. Mensagens de quem se importava e de quem ela queria fugir, mensagens da mãe e de outro alguém. – Não vai responder?

– Não.

– Uma hora vai ter.

– Eu não vou não, nós vamos fugir até o pôr do sol e seremos felizes para sempre. – a garota esticou os braços abrangendo o céu acima e sorria, ela sabia que falava besteira… Coisas que nunca poderiam acontecer realmente, mas era bom fazer planos loucos e acreditar um pouco que dariam certo. Como fugir de casa numa madrugada fria de maio junto do seu melhor amigo e abandonar todos os seus problemas em uma lata de lixo pelo caminho.

– Não te entendo.

– Sou mulher, não sirvo para ser entendida… Perderia toda a graça. – ela riu e ele revirou os olhos, desviava do assunto que não a interessava como sempre. Ele conhecia o jogo e quanto podia insistir antes que ela se enfurecesse e falasse de uma vez ou calasse para sempre, conhecia o porquê do mistério que ela se fazia ser.

– Era só dar uma resposta. – insistiu – Três alternativas: Sim, não ou talvez. E não existia erro.

– Sempre há erro. – sentou-se desalojando o rapaz e observou a auto-estrada – Se responder sim um de nós pode se arrepender, na hora ou no futuro. Quanto ao não a mesma coisa. E o talvez… É o mais perigoso de todos, experimentaremos, criaremos esperança e nos acostumaremos um ao outro como me acostumei a você. Então ficaremos na segurança do talvez e nunca seremos nada mais até um dia nos afastarmos tanto um do outro que nunca mais nos encontraremos e teremos sido apenas uma possibilidade.

Ele a observava, era confusão e era medo os dois juntos não soavam boa combinação. A garota que vestia uma capa de confiança ao encarar os medos e problemas dos outros como seus, que não temia abandonar o único universo que conhecia hesitava em arriscar suas chances quando se tratava de ser uma garota. De certa forma era por isso que combinavam, opostos e espelhos um do outro ao mesmo tempo. Ele ela e ela ele, todos os problemas que partilhavam se originavam aí.

Ele conhecia a história, a moleca do avô que brigava na escola e escalava árvores não sabia o que fazer quando começava a desenhar corações alados nas bordas do caderno e corresponder aos sentimentos de um rapaz que não fossem socos no intervalo. Ele se ressaltava como uma ferida, ligeiramente feminino na própria natureza, magro demais, gentil demais e ela um próprio cavalo desembestado correndo atrás do próximo prêmio. Opostos complementares e espelhos ressaltando o defeito um do outro, par perfeito e almas gêmeas… Claro que nunca seriam mais do que amigos-irmãos, bem que poderia tentar. Muito mais fácil ficar com alguém com quem não precisa falar para ser entendido, cujos gestos se unem em sintonia como um salto ornamental. Porém gêmeos que por mais que tentassem só encontrariam a morte se tentassem se tornar siameses.

– Qual é a viajem agora?

– O quê?

– Você ficou quieto aí um tempão, pensava em quê?

– Que você deveria deixar de ser besta e responder as mensagens dele.

– Sem graça, se eu tenho que fazer isso você deveria ter que juntar os colhões que tem e falar com teu pai.

– Nunca!

– Deixa de besteira! – ela se irritou e ficou de pé – Você sabe que nunca vai se sentir bem se não contar a eles e aí arcar com o que vier… Você se sente mal por tê-los deixado e no fundo queria era que te expulsassem para poder ir em paz para a capital! – gritava, os carros diminuíam um pouco para observar a maluca gritando no meio do nada.

– E você que por mais desculpas que arrume sabe que saiu mesmo para não ter que decidir o que fazer consigo mesma! Fugiu covardemente dele!

– Cala a boca!

– Você tem medo que ele te machuque! Que não seja capaz de te ver como a mulher que é e por isso finge que está tudo bem em ser só um cara para ele!

O sol descia no horizonte e o calor do asfalto não conseguia mais atingir o pasto, uma brisa fria arrepiava os pelos dos braços e os fazia desejar um abraço. Silêncio, ela recuperou a jaqueta e a canga ele os restos do almoço tardio e o celular dela, o qual entregou bruscamente enquanto as mensagens pipocavam na tela iluminada. O nascer do sol em uma madrugada fria trazia novos caminhos, o pôr do sol de agora ressaltava velhos hábitos e erros de sempre e não havia música na caminhonete quando esta se pôs na estrada novamente.

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