O Sonho de Eva

 

Primeiramente, o que o leitor precisa saber: Eva era o terror da cidadezinha onde morava, afinal ela não era normal e pior, não o era por escolha própria (como as senhorinhas costumavam pensar) por isso andava toda de preto em pleno verão com botas e pulseiras de tachas. Eva não ia à igreja, isso por si só já alimentava todos os boatos que circulavam.

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O Sonho de Eva

 

Eva, apesar do nome bíblico, não acreditava em deus. Era ela uma mulher dos livros, sua igreja era as fileiras de estantes empoeiradas repletas de livros das bibliotecas. Seus deuses e santos? Os filósofos e pensadores, a evolução de Darwin e que apenas o homem é o lobo do homem.

Feliz de quem é livre para ir onde bem entender sem se preocupar com céu ou inferno nem levar a sério filmes de terror, se auto-determinar é um direito de poucos nesse mundo de cristãos, católicos, mulçumanos, judeus etc; todos eles brigando sobre quem está certo ou errado, quem tem direito a terra santa e por quantos seguidores cada um tem.

Eva acredita no pó, nos átomos, nas partículas mínimas que formam tudo quanto existe no mundo e quando tudo morrer as partículas se separarão e voltarão ao princípio para criar a vida novamente.

Assim tudo estava bem enquanto o sol brilhava no céu, porém quando a noite caía e Eva se via em sua cama sozinha, ela pressentia a necessidade de não estar tão só e a cama com alguém dividir. Queria então acreditar em algo maior para não ser responsável por tudo que fazia.

Por que isso acontecia? É que a noite e a cama vazia lembravam a Eva que não amava, não era capaz. Amava só os livros que tinha seus únicos companheiros e caros tesouros. Só eles a entendiam, de resto era sozinha por não compartilhar com o mundo a crença que o mundo tinha.

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O quarto estava à meia luz, pelos recantos abertos da cortina o farol dos carros passavam pelo vidro e distorcia imagens na parede. Havia memórias infantis pelo lugar, a boneca no alto da estante que assumia ares assustadores, os bichos de pelúcia em monstros imaginários de criança. Eva se revolvia na cama, os lençóis embaraçavam em suas pernas e se enredavam em seu corpo pendendo-a. Os cachorrinhos estampados no edredom corriam e ladravam como se assustados com algo. Eva sonhava.

A sua estante repleta de livros, os que gostava-amava e os que era obrigada a ler pela escola, as poltronas marrons e antigas, o lustre velho e verde. Tudo adquirira um ar mais vivo, interessante, mais real que a própria realidade.

Sentado confortavelmente como em sua própria casa havia um homem belo, tão belo quanto o mais recente galã das adolescentes. Olhos dourados como o mais claro amanhecer perfuraram seu corpo chegando à sua alma e percebendo seus mais perfumados profundos pensamentos.

– Quem é você? – Eva nunca o tinha visto antes, mas tinha a impressão de já o conhecer, de certa forma aquela pergunta não fazia mais sentido.

Ele sorriu, apenas um sorriso sedutor como uma lâmpada para uma mariposa – Ora Eva, você me conhece já… Sabe o que sou. – os olhos brilhavam e ela sentiu raiva, o uso do que em lugar do quem lhe passou quase despercebido.

– O que você quer comigo? – um ligeiro pressentimento de que já sabia surgiu, mas não conseguia acessar o canto de sua mente em que tal informação estava gravada.

– Não sabe? – o sorriso em seu rosto adquiriu um ar ligeiramente assustador como um lince – Deus, Eva. Deus.

– Deus? – foi a sua vez de rir – Não existe! – declarou do alto de sua empáfia – Um conto de fadas para enganar crianças… Dar-lhes um motivo para serem boas! – sim, ele certamente estava assustador agora. Não gostou de sua resposta.

– Deus, Eva, Deus… – os olhos do homem se estreitaram, pareciam os de uma serpente. Apenas pequenas fendas brilhantes – Você acha que Ele gosta de ouvir isso? Contos de fada, Eva?

Eva não percebia o perigo que começava a se formar ao seu redor – Você exagera, é mais um daqueles fanáticos que ficam gritando no meio da rua com uma bíblia na mão. Acreditar em deuses é para os fracos que precisam pôr toda a responsabilidade de suas vidas em alguma coisa ou alguém.

– Então por que grande parte da humanidade acredita Nele, Eva?

– Porque a humanidade é fraca, precisa culpar alguém pelas suas mazelas, seus erros e também pelos seus sucessos. Ou então enlouqueceriam sob o peso de suas próprias vidas em suas cabeças! – Eva estava decidida a vencer essa discussão, do mesmo modo que sempre debatia com o professor de religião do colégio de freiras onde estudava. Não iria ter medo, ela não era um dos fracos que precisavam de um responsável por suas vidas.

– Sim, Eva, a humanidade é medrosa e, em parte, é assim que Ele os quer. É como Ele consegue adeptos. – no sorriso cruel que se abriu, Eva notou que os dentes brancos e perfeitamente alinhados eram pontiagudos. Estranhou, mas achou melhor nada falar – E na morte você acredita?

– Não zombe de mim! – tocou em seu ponto fraco, pois Eva temia a morte mais do que tudo pois, para ela, a morte era uma incógnita, um mistério a ser desvendado que a repelia ao mesmo tempo que a atraía, como mariposas para a chama de uma vela – Tudo tem seu fim nesse mundo, até mesmo as coisas que nos parecem eternas… Isso é algo natural, fora o velho e que venha o novo! – talvez se brincasse seu desconhecido visitante não perceberia seus tremores.

– E no inferno, Eva? Nele você acredita? – aquele homem era só sorrisos?, pensava Eva, afinal desde o primeiro momento ele era uma mostra de todos os tipos de sorrisos, agora ele trajava o modelo irônico.

– Inferno? – quase engasgou, havia um riso entalado em sua garganta e ela achou que ele parecia interessante – Outra invenção que a igreja criou para difundir sua ideologia entre os homens e forçá-los a obedecê-la para aumentar seus poder. O medo do desconhecido e do sofrimento é o que alimenta a fé das pessoas. Elas precisam acreditar que irão para algum lugar… Até mesmo um lugar de dor e sofrimento é melhor que o nada para elas! Terem uma certeza no que lhes é incerto. Céu, inferno… São reflexos da mente humana para representarem prêmios ou punições pelo que fizeram em vida. Para poderem acreditar que suas ações insignificantes possuem um reflexo maior em suas próprias vidas e no mundo.

– Eva, Eva… – balançou a cabeça para os lados como se ouvisse as “grandes” conclusões sobre o mundo de uma criança pequena e ignorante – Você acha que sabe muito da vida e do mundo, mas dezesseis anos solares não é tanto tempo assim… – ele sorria com pena – É o mal dos jovens acharem que conhecem todas as regras do mundo, só que o jogo mal começou de verdade para vocês! O inferno existe, Eva! E poucos são os afortunados que só o conheceram na morte! – os olhos do homem se tornaram vermelhos, chamas pareciam arder em cada um e gritos escapavam de suas pupilas negras.

A sala da casa de Eva parecia se alongar e distorcer-se, as cores agora lhe doíam a vista de tão vivas, já não era mais tão real. Ela sabia que era sonho ou visão, como os que tinha quando criança e via esqueletos brotando do chão. Poderia acordar quando quisesse…

– Você pensa que está no controle Eva, mas a vida é um tabuleiro de xadrez e as peças são vocês. A nós cabe transformá-las em negras ou brancas, definindo o lado do tabuleiro em que jogam.

– A vida é um jogo, mas não de xadrez! As peças não são só pretas ou brancas, há toda uma variedade de tons que lhe são desconhecidos que cada um adquire pela vida.

– Eva, Eva, Eva… – ele olhou para as estantes e examinou atentamente cada título – Você acha que tudo o que se pode saber está contido nesse monte de lixo? Eles provam o quê, Eva? Que Deus e o Diabo não existem? Que céu e inferno são delírios da mente humana para se consolarem da injustiça do mundo? – gargalhou – Santa inocência criança!

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– Valem muito mais do que qualquer livro religioso! – exasperava-se – Quem os escreveu foram pessoas cultas, pensadores que pesquisaram a fundo o tema de seus textos ou procuraram retratar com o máximo de fidelidade o seu tempo! Foi o jeito que encontraram de marcar sua presença no mundo!

– Besteiras Eva! – avançou enlouquecido para a estante e começou a derrubar os livros pelo chão – Eles só existiram porque Deus quis! Só escreveram tais coisas porque Ele soprou a semente da idéia em suas cabeças! E só foi assim por que EU os visitei e pus a prova, os fiz crer ou descrer! Porque eu sou O Mensageiro da Luz, Eva!

– Você é louco isso sim! Deixe meus livros em paz, pare de destruí-los! – Eva tentou impedi-lo, porém quando percebeu que o livro que tinha em mãos nesse momento relaxou – “A Ordem dos Templários”? – riu-se – Deste eu não gosto, rasgue a vontade!

O homem começou então a rasgar o livro e pisoteá-lo com tanto ódio contido que Eva quedou-se calada e estranhamente indiferente quando esta atitude passou para os outros livros, sua figura agora era assustadora. Uma aura vermelha brilhava a sua volta e algo como chifres brotaram de sua cabeça. Eva estava começando a entender aquilo tudo quando reparou no livro que o desconhecido começava a rasgar naquele momento.

– É “Um Conto Real”, deste eu gosto! – ela interrompeu e de que adiantara? Nada, ele o rasgou do mesmo modo e agora se aproximava de Eva bufando – Quem você pensa que é? – estava irritadíssima com este indivíduo que entrara em sua casa sem ser convidado e destruía seus preciosos livros. Em sua irritação, Eva, olhou para os pés da figura e constatou que eram patas de bode.

– Você é… Você é… – definitivamente assustada agora – Você é o… – ele se aproximava aos poucos com um sorriso sádico no rosto.

– Isso mesmo, Eva! – já se encontrava a apenas dois passos dela – Isso mesmo… Eu sou o Diabo, Eva!

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Queria correr, queria gritar e se agarrar na barra da saia de sua mãe, seu coração parecia parar de bater e sabia que ia morrer – Se você é o diabo, por que defende a crença em deus?

– Porque meu nome é Lúcifer, Eva. Deus é onipotente e supremo, se ele assim o quisesse eu não existiria. Mas o que é o bem sem o mal? Eu sou Seu melhor seguidor, Eva. Sua idéia mais brilhante, Seu pregador supremo! Eu sou a espada que Ele criou para converter os ateus e ameaçar os crentes! Cabe a eu ser o motivo para as pessoas irem até Ele! Eu sou Lúcifer, a Estrela da Manhã! Seu amante e Seu igual! O favorito entre os elevados! – quando ele estava prestes a tocá-la Eva se joga aos seus pés e os agarra com toda a força que possui.

– Perdoa-me Satanás! Perdoa-me! Perdoa-me Lúcifer, a Estrela da Manhã, se não creio! Se não creio em ti nem em teu senhor! – a realização da presença dele a assustara tanto que perdeu qualquer compostura que poderia possuir. Como ele nada mais fez a calma foi novamente se apoderando do seu ser até estar forte o suficiente para responder.

– Perdoa-me, mas se não creio não é minha culpa. É dele e é sua que muito bem me poderiam convencer se o quisessem!

Lúcifer sorri – Para que acha que estou aqui, Eva? – todos os dentes aguçados se mostravam agora – O cálice transbordou, a última gota que cabia já foi derramada! Ele não tolerará sua descrença e ofensas! – segurou-a pelos ombros pondo-a de pé – Ergue-te Eva e olhe nos olhos de Deus!

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                Eva acorda, sentando-se assustada na cama com sua respiração acelerada e na porta do seu quarto ele se encontrava sorrindo. Fechou os olhos e respirou profundamente, quando tornou a abri-los não havia mais ninguém lá, apesar de ainda conseguir sentir sua presença.

– Fui vencida, bem sei Lúcifer! Fui vencida porque Ele criou a noite, o medo e a solidão; porque criou a caixa de pandora e fez com que fosse aberta, pois só assim se faria senhor. Esta noite vocês venceram, portanto deixem-me em paz para poder dormi-la sem me preocupar com deus ou com diabo.

O escuro do quarto se intensificou e a imagem do Estrela da Manhã ainda grava nas pupilas de Eva sorriu presunçosamente de seu lugar na porta do quarto.

O diabo tão estigmatizado pela fé cristã é, na verdade, seu maior defensor. Afinal é ele que “pune” os pecadores a mando do seu senhor, se fosse realmente um inimigo e não um auxiliar não estaria executando tal função.

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