Vamos fugir de casa?

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Parte 2 – Padaria

            Café fraco. O homem pode ser fraco, a mulher, o prédio, o carro ou o político. Só o café que nunca na vida pode ser fraco, café fraco é sexo sem tesão, amor sem paixão e tu sozinho em um busão lotado. Café fraco é poesia escolar, acordar sem ver o sol e dormir sem masturbar. Café fraco é tudo o que quem não te merece acha que você merece. É morrer sem ter vivido, é o beijo que teu pai dá na tua mãe antes de dormir e é o que havia na xícara dela para se beber. Era só o que tinha na padaria, café fraco de coador adoçado demais. A melhor abertura depois do prelúdio daquela aventura dos dois, café fraco como na casa dela… Estrangulado demais para ser forte.

             Ele o bebia com leite e um pão na chapa era feito para ser dividido. O rapaz estava acostumado à fraqueza do café, afinal a lotação de sua casa impedia que café algum pudesse ser forte e ele gostava assim. O café fraco era-lhe reconfortante, tinha gosto e aromas de casa… Era a época mais fácil, onde tudo era calmo e bom. Onde o mundo terminava no quintal, preocupações e segredos ainda não existiam, quando ainda não se diferenciara dos irmãos.

            Pessoas desconhecidas entravam, comiam, bebiam e saíam; ali os dois eram anônimos. Ninguém deles nada sabia e eles não sabiam nada de ninguém. A privacidade era total mesmo se estando a vista, não precisavam se esconder. Não precisavam também se conhecer, bastava ser e o ser bastava. Em alguma terra que não esta essa situação receberia o nome de liberdade.

            Apesar do café não ser do seu gosto o dia até que avançava pacífico e pacífico poderia continuar, a garota soube em um instante que seu inconsciente a traíra. Pensara de repente, concluíra subitamente que não mais precisariam um do outro como um afogado anseia por ar ou um alcoólatra pela próxima dose. Na cidadezinha os dois permaneciam unidos pela necessidade de sobrevivência, afinal um era a liberdade do outro! Mais que ar, mais que comida… Eram o espaço em que o outro podia existir. Se liberdade era o que agora viveriam nãos mais precisariam de substitutos móveis.

            Deixaria de ser necessária a ele e ele a ela, se afastariam logicamente com a rapidez de placas tectônicas. Triste isso seria, mas a questão era se necessitariam um do outro nessa nova realidade. Talvez fossem mais sinceros em seus sentimentos se não precisassem um do outro e estivessem juntos por mero apreço. Poderiam, por decorrência do destino, acabarem só se telefonando no natal. Completos estranhos.

            – O pão de vocês! – foi a garçonete de idade indefinida deixando o prato de limpeza duvidosa na mesa entre os dois – É a primeira viagem do casal? – ali estava a acusação sempre repetida, um rapaz e uma moça não podiam estar juntos como amigos, como grandes amigos, tinham de ser namorados. O sexo tinha de estar envolvido.

            – Somos só amigos! – foi o que ela disse antes que ele sequer pudesse raciocinar a questão, a verdade é que havia grande tensão sexual da parte dela, mas também o era que da parte dele nada havia e ela tinha o conhecimento dessa verdade. Não queria era ouvi-la dele.

            Ele se encolheu ligeiramente no banco da padaria. O que para muitos não passava de uma pergunta inocente, uma forma de puxar conversa e se sentir íntimo com um completo desconhecido porque todo mundo teve um primeiro namorado, menos a bailarina… Para ele era uma acusação velada. Ela não era sua namorada, nunca seria. Nunca haveria de ter namoradas. Não as desejava era o problema, tomou mais um gole de café enquanto ela partia o pão na chapa para que comessem, pensou que seria mais fácil se pudesse estar com ela da maneira que os outros pareciam pensar que estavam. Não que pudesse, se pudesse não teria fugido de casa. Se pudesse não teria levado um soco nas costelas dado pelo pai, a mãe não teria chorado, o irmão não teria xingado e a irmã não teria dito que já desconfia. Se pudesse… Se pudesse talvez ficasse trancando no armário. Não podia.

            – Não pense. – ela falou, estendendo-lhe um sorriso e a metade do pão que lhe cabia – Não pense neles, eles não pensam em você.

            – O mesmo para você! – e eles brindaram com o café fraco que ninguém merecia e o pão na chapa que é a melhor coisa que existe na terra, principalmente depois de uma noite passada em lugar nenhum. Ela sorriu seus problemas pequenos se comparados, os de quem tem tudo e nada ao mesmo tempo. Sorriu dos pais que não se amavam, das cobranças que não poderia cumprir e do amor que vinha com um preço que tinha de sangrar para pagar. E os dois se amavam, de um jeito meio torto, meio desembestado de irmãos de mães diferente; ela tinha esquecido de que ele era ele, ela era ela, ele era ela e vice versa. Enquanto vivessem precisariam um do outro para salvarem-se de si.

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