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           Trancado no quarto ele dobrava, dobrava um, dois, três, quatro… Dez, vinte, trinta, quarenta. Sua existência se resumia a dobrar barcos de papel, aqueles pequenos navios de mentira que se dissolviam na água. Frágeis assim como ele, como pequenas borboletas atraídas por uma lâmpada a óleo.

            Há muito tempo tinha aprendido essas dobras, para lá, para cá, volta, vira e aí está um barquinho de papel em perfeitas condições de flutuar por fugazes instantes. Foram mãos femininas que o ensinaram a dobrar, mãos com unhas bem cuidadas e dedos manchados de tinta, brancas. Branco papel manchado de tinta, branca mão manchada de tinta. Ele construía barcos que navegavam e ela navegava em barcos de papel que não iam a lugar nenhum.

            Estranha relação que se configurava: barcos de papel que derretiam na água e borboletas atraídas por lâmpadas a óleo. Ele, os barcos; ela, as borboletas. Todos tinham fim ao alcançar o que almejavam. Homens tentando roubar o fogo dos deuses. Fadados ao erro. Eles eram o não. Não falavam, não tocavam, não estavam realmente ali. Nunca estiveram.

            Barcos de papel derretendo na água do mar, borboletas incineradas em lâmpadas a óleo. Não iriam a lugar algum.

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2 comentários sobre “Barcos de Papel

  1. Acabei de descobrir que as vezes simplesmente não sei o que dizer. Eu penso, sinto mas simplesmente não consigo botar em palavras exatas…

    Mas acho justo comentar, porque não é legal só stalkear sghfdgs

    Não sei, mas esse texto me trouxe algumas reflexões antigas, sobre o homem em geral e sua existência. Gostei. ❤

    (ah sim, é a avoiding time do ff.net aqui)

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