Vamos fugir de casa?

by: https://twitter.com/RELATlONSHlP/status/438905086988017664/photo/1
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A garota acordou no meio do nada, para norte ou sul só se via estrada e campos vazios. Amanhecia devagar a leste, o mundo transformava-se em uma fotografia antiga em escalas de cinza só com um leve tom de rosa bem ao fim do mundo. Ele já estava de pé enquanto ela ainda aproveitava a dormência do sono na traseira da caminhonete.

– … – olhou-a de lado, queria saber como ela estava… Se tinha dormido bem sem conforto nenhum, sem casa nenhuma, sem nada conhecido ou comum. Não precisava preocupar-se. Estava bem. Estava vazia e esse sentimento de vazio era a melhor coisa que já tinha sentido nos últimos tempos.

O vazio que sentia o assustava, mas não a garota. No silêncio da madrugada o ruído dentro de si era tão alto que se surpreendia da garota não o escutar também; o barulho da casa que deixou era tão alto que nem fazia ideia dos ecos dentro de si.

Espreguiçou-se sentando onde dormira e enrolada na velha manta pôs-se a observá-lo. Ele não esta feliz. Virava a face para cada ponta da estrada como se a espera de alguém. Não esperavam, esse projeto era só dos dois. Procurava, ele, alguma coisa que não encontrava aqui. Que talvez aqui também não estivesse.

Ela agora o observava. Sentia-se constrangido e sabia que ela sabia como se sentia. Sabia que ela sabia seus pensamentos. Os deles ou os dela. Tanto fazia. No fundo haviam perdido as fronteiras entre o ela e o ele, poderia estar pensando os pensamentos dela e ela os dele; o que achava ser si na verdade seria ela e ela o era.

– O que faremos agora? – não havia dito o onde, ele não precisava que ela o lembrasse de ondes, pois o via mexer os lábios em um monólogo silencioso. Precisava ele que ela o tirasse daquele lugar como ele a tirara do dela na noite passada. Ela então o fez, porque era assim que ele e ela eram.

Ele gostaria de socar o tolo que colocara no livro a mulher como perdição do homem se ali, como antes, ela o salvava de si próprio. O resgatava para a realidade como ele a resgatara da casa dos pais. Não poderiam ficar ali no meio da estrada, choveria e a caminhonete não era abrigo… Sentiriam fome, não a fome que sentiam em suas casas ou mesmo a que os abatia na cidadezinha. Mas a fome primitiva, primal, que assola todos os seres do planeta por igual – Não sei.

– Não precisamos decidir agora. – esse era o alívio, não precisava decidir nada agora nem depois. Não que temesse ter que tomar a decisão por ele naquela estrada, ali tudo era válido. Temia era as decisões que só possuíam uma resposta certa. Seu desejo era dominado pelas erradas, mas se via tendo que tomar as decisões certas e isso a matava porque a vida não era sua. Teriam que se mover, afinal ela o conhecia e sabia que não era silêncio, logo o medo que tinha de si mesmo o faria sentir falta dos seus e os obrigaria a voltar. Ela não queria isso.

– Não, não temos. – não, não tinham que decidir, pensava. Não tinham que revelar, falar ou interpretar, simplesmente sabiam um ao outro, portanto ali eram quem queriam ser. Sem dever explicações a ninguém, sem ter de decidir se serem o que eram feriria alguém. Sem se preocuparem com ninguém, só com eles mesmos. Não desejavam fazer nada por ninguém, mas também não queriam que ninguém fizesse nada por eles a não ser que os deixassem serem livres.

O problema era que ninguém os permitia, por isso fugiram e agora ali estavam. Só não era uma encruzilhada literal porque a estrada ali não se unia a nenhuma outra. Estranho e engraçado que para quem deseja escolhas eles tivessem escolhido uma estrada que só levava a um lugar, para ele ou fora dele. O importante consistia em deixar a cidadezinha, o lugar que nunca seria a casa que desejavam.

– Tá com fome? – foi ele que falou desta vez, o estomago da garota roncou suavemente. Riu – Tem biscoitos no porta-luvas.

– Tem café no porta-luvas? – ela brincou e ali no nada o riso ocupou o espaço que na cidade era das pessoas – Vamos seguir em frente, toda cidade tem uma padaria, por menor que seja.

– Mas temos biscoitos! – exclamou ele para ser recebido com o característico erguer de sobrancelhas dela.

– Você sabe que eu não amanheço sem café. – desceu da caçamba e juntos entraram na cabine, partindo na direção em que o sol se levantava.

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3 comentários sobre “Vamos fugir de casa?

  1. Você conseguiu dar uma ‘repaginada’ nisso de adolescentes em fuga. Acho que nunca li nada em que o rapaz é quem ficasse inseguro e que a garota pareça tão importante para as decisões assim. Acho que foi uma história de amor real, de um relacionamento bem mais saudável do que vemos por aí – um casal que se apoia, que consegue ser um porto seguro um pro outro quando não existe nada mais ao redor.

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