Sonhos Despertos – Introdução

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Juntou as pontas dos lençóis com pregadores de roupa às extremidades da cama, ergueu um mastro de livros e hasteou sua bandeira feita de meia velha. Foi navegar.

Naquela manhã o dia nasceu cinza no mundo do apartamento. O sol não espreitou tímido pelas janelas cobertas de persianas e todos perderam um pouco a hora, por isso ninguém que importava tinha paciência na parte da manhã… Quer dizer, ele ainda a tinha, mas ele não importava. E o café desceu amargo diante do prelúdio da terceira guerra.

            Leu a Ilha do Tesouro. Leu Peter Pan. Na noite anterior ao dia lembrou que fora pássaro. Podia voar.

No prédio quadrado de todos os dias os sonhos eram podados, envazados e adubados como bonsais. Podiam crescer e talvez frutificar, mas apenas do jeito que os jardineiros permitiam. Quatro cantos, quatro cantos que o prendiam. Tinha medo e cansaço dos outros, apesar de ainda não ter idade para ser levado a sério. Talvez isso não fosse tão ruim assim.

            Abriu a janela e deixou que as estrelas entrassem no quarto, conversou com cada uma delas. Oceanos em galáxias. Mares de poeira cósmica. Ilhas de planetas. Nuvens navegáveis. Cometas propulsores. Por via das dúvidas levava junto uma cópia do Pequeno Príncipe, nunca sabia quem poderia encontrar. Talvez as estrelas rissem para ele.

Naquela tarde não tinha fome, mas comeu. Naquela tarde os lados se enfrentaram. Naquela tarde a parede direita encontrou-se com a esquerda. A poeira subiu e ele chorou. Chorou sem importância enquanto a gente séria brigava na sala de estar. A gente séria que um dia tinha afirmado se amar. O colocaram no mundo sem nem perguntar.

             Prendeu no pijama a espada de plástico. Dobrou a lição e ali estava o chapéu. Chapéu de almirante.  Estendeu o cobertor entre o mastro e a cabeça. Esperava o vento para sua vela.

Na noite que se seguiu a tarde brigaram de novo os sérios. Ruídos abafados. Batidas ocas. Ele sozinho. Ouvia. Não entendia.

            A lua debruçou-se na janela aberta. Beijou-lhe a testa. Lá estava o menino levado soprador. Sopra a dor. Pode ser que você, gente séria, não acredite. A cama levantou vôo quando a vela-cobertor se inflou. Saiu flutuando cama e menino pela janela aberta em direção ao mar do céu.

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