Pot-Pourri

 Young_Diva_by_CrisVector

Toda menina;

Quando pequenina;

Quer ser bailarina.

            Só que não. Ao menos não ela em particular, todo dia, às três da tarde, era uma pequena sessão de tortura para ela e pra a babá. Não que fosse mal educada ou extremamente teimosa, apenas tinha idéias firmes e certeza de suas próprias opiniões não se deixando levar pela fala doce e propostas encantadoras que os adultos faziam somente para convencê-la. E havia a meia-calça… A meia-calça rosa maria-mole. A meia-calça grossa. A meia-calça quente. A meia-calça que pinicava e nunca parava no seu devido lugar! Como odiava aquela peça de vestuário, com todo o ódio que uma criança pode ter e mais que o dentista ou as idas ao posto de saúde tomar vacina. Não era idiota, então enrolava… Quanto mais tarde chegasse menos aula teria, enrolava para tomar banho (mais cinco minutinhos), para por a meia (chorava e reclamava) e para domar a selva de cachos em um coque perfeito e arrumado (ai! Tá doendo sua bruxa!); porém nem sempre conseguia seu intento e lá ia ela de mãos dadas com a babá até a escola de dança onde aquelas senhoras muito altas, muito magras e muito sentimentais a esperavam.

My_Doll___Free_at_last_by_kmye_chanNa ponta dos pés quer dançar;

No palco espera brilhar;

Na vênia final, beijo para a platéia jogar.

            A segunda mais gorda da turma. Não, ela não era obesa nem tinha sobrepeso. Era só cheinha, mas em uma turma de balé com umas trinta meninas magrelas de cabelos lisos e coques pequenos e perfeitos isso era muita coisa. O suficiente para ser a segunda mais gorda, nem nisso ela era a primeira, não que quisesse ser a melhor. Queria era gostar de dançar, mas era impossível. Quem sabe, se a “tia” não gritasse tanto com ela, não mandasse fazer dieta nem cortar seus cabelos porque eram feios… Bom, talvez ela gostasse mais de dançar. Desajeitada. Atrapalhada. Desatenta. Propensa a quedas. Desconjuntada. Se ainda não entendeu, bom, os joelhos dela viviam roxos e, o que era pior, nem ligava. A vida era uma aventura, mas nem tanto. Aprendeu isso quando a mãe a pegou tentando escalar a varanda da casa com um barbante e um gancho de ovo de páscoa (que nem Indiana Jones). Havia também o balanço que o avô tinha feito de corda com um pedaço de tábua… Ela calçava seus patins (para conseguir mais velocidade) e sentada no balanço dava um grande impulso. Voava, não precisava se preocupar em acertar os passos, encolher a barriga nem esticar o pescoço.

Menina;

Não sabia, pequenina;

Do esparadrapo no pé da bailarina.

Fiesta_de_te__by_skylat            As coisas seriam melhores quando chegava a casa, lá não havia tia malvada, seus bonecos não a criticavam e lá estava o Sr°. Bigodes esperando para juntos derrotarem a bruxa Precária nas Terras do Sem Fim. Como eu disse, as coisas seriam melhores… Até seus pais esquecerem que ela existia e irem brigar um com o outro. Nessas horas ela se encolhia no canto perto do armário ao lado do tigre de pelúcia e fechava os olhos, se fizesse bastante força esquecia os ruídos e logo Sr°. Bigodes estava de pé em suas quatro patas pronto para levá-la aonde quisesse ir.

Pobre menina;

Queria ser bailarina;

Para nas nuvens flutuar;

                                                                                                                                  Para sempre dançar.

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