Day 14 – Use elementos de fantasia

Upsilamba

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            Havia há algum tempo na África, em alguma tribo não muito conhecida num país assolado pela miséria, destruído pela guerra civil e explorado pelo conquistador europeu; um menino. O menino tinha um nome tribal que era complexo demais para ser pronunciado por nossas línguas civilizadas, tinha também uma mãe cuja pele reluzia como o diamante negro que os brancos tanto cobiçavam e usava um lenço colorido enrolado na cabeça com enormes brincos de dente de leopardo. Tinha também falta de pai. O pai guerreiro da tribo morrera na guerra civil que as tribos armaram e tudo que o menino conseguia lembrar era das pernas compridas correndo como antílopes na savana, além da poeira que desprendia do solo seco.

            Tinha fome, ela, porém, era presença constante naquele lugarejo no meio da áfrica de cujo solo só se conseguia tirar os diamantes, mas diamantes não se comiam… Se vendiam, se vendiam aos brancos de roupa engraçada e armas assustadoras que iam até a aldeia uma vez a cada quatro luas.

            O nosso pequeno menino africano, como se pode perceber, não tinha lá muita coisa que pudesse chamar de sua e nem queria ter, sinceramente. Não fora criado assim, não era como certas crianças brancas que tudo tinham e tudo queriam; nem grandes sonhos tinha. Não queria ser jogador de futebol, ao contrário de todos os meninos da favela em que a aldeia tinha se transformado. Não entendam mal, ele amava jogar futebol, mas não conseguia imaginar estragar algo que gostava tanto transformando-o em trabalho, em obrigação. Não queria ser médico, mesmo que isso o tornasse respeitado por todos por acreditar que não conseguiria ver ninguém sofrer; não sonhava em ser rico nem mesmo sonhava com comida.

            Acreditava que sonhos não se prestavam a isso, com coisas que habitavam o lado de fora. Sonhos não deveriam ser desperdiçados com realidades, na sua insignificante opinião de criança. Seus sonhos eram maiores, eram grandes como as lendas que os velhos contavam a noite sobre os deuses-homens e os deuses-bicho que andavam pela terra há muitas gerações, eram coloridos como as bonitas histórias do passado que a mãe cantava para seus irmãos menores enquanto fazia comida agachada no chão da cabana. Eram cheios de coragem pura como os contos de caça que os homens contavam entre si e os meninos ouviam escondidos.

            Justamente por causa disso nosso menino africano recebeu um presente especial… O menino africano tinha uma fada-madrinha! Não sejamos precipitados, vocês devem estar se perguntando como um menino africano tem uma fada madrinha? A história é a seguinte: ela passava por ali quando ele ainda no útero repousava e viu os sonhos que aquela alma recém instalada tecia sobre como seriam a vida e o mundo e se encantou pela criança que ainda não nascera e decidiu se tornar sua madrinha, por isso, apesar da guerra, da fome e de tudo de ruim que acontecera naquele ano, o menino resistiu para numa noite em que as estrelas eram tantas e brilhavam tão baixo ele nascer.

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            A fada madrinha estava lá e segurou-o junto com a parteira enquanto sussurrava bênçãos e bons desejos sobre a criança, porém um presente especial ela guardou e esperou que o menino completasse cinco anos para entregar. Quando esse tempo chegou o pai já tinha morrido e a mãe arrumado outro homem para esquentar a sua esteira e tido muitos outros filhos tanto que, para ela, o nosso menino era só mais um para arrumar comida e remendar roupas, mais um dos do marido morto para lembrá-la sempre do único homem que amou. O novo homem não gostava dele nem de nenhum dos filhos que eram do outro, só tratava bem os seus, para eles era a melhor comida e o dinheiro que arranjava apanhando diamantes para os brancos.

            Aos cinco anos a vida de nosso menino estava bem ruim e ele então passava todo o seu tempo livre sonhando acordado com os sonhos que tinha à noite. Foi num dia quente em que ele estava sozinho em uma pedra alta na savana, chorando quieto com o estomago colado as costelas e com as marcas da vara do padrasto ardendo que ela lhe apareceu.

            Agora, antes de continuar, vou esclarecer o leitor. Não imagine a fada como as européias, não era uma coisinha pequena e diáfana envolta em panos nobres com asinhas brilhantes e varinha mágica. Era uma criatura de mais de dois metros de altura e magra de malares salientes cuja tez negra era lustrosa como petróleo, vestia apenas uma pele de leopardo como capa e uma tanga de um reluzente tecido vermelho sangue; o busto se encontrava coberto por inúmeros colares de dentes e contas enquanto os brincos eram de ouro com enormes garras de leão dependuradas. Não carregava varinha, trazia sim uma lança enfeitada com plumas.

            Nosso menino acreditando tratar-se de uma deusa se curvou e sua fada madrinha lhe contou sua história, como o conhecera, como lhe agradara e que por isso receberia um presente – Upsilamba! – ela disse – Esse é o nome que te dou, é mágico. Quanto estiver em apuros ou simplesmente desejar muito uma coisa é só dizê-lo em voz alta, mas, preste atenção, é um nome secreto! Só continuará sendo mágico enquanto só eu e você o soubermos, entendeu?

            Upsilamba assentiu e a fada madrinha desapareceu transformando-se em folhas ao vento. O menino como estava com muita fome pensou em comida e murmurou meio sem acreditar – Upsilamba… Upsilamba. – quando deu por si havia uma tenda armada à sua frente e um cheiro delicioso rondava o ar da savana. Tomando coragem para entrar encontrou travessas enormes cheias de comida até transbordar e Upsilamba comeu até se fartar, quando estava satisfeito tudo desapareceu. O menino, meio desperto meio adormecido, voltou para a aldeia acreditando ser tudo um sonho.

            No dia seguinte na aldeia o sal já ia embora quando o padrasto voltou da caçada sem caça nenhuma e ninguém teve o que comer, os filhos dele choravam agarrados na barra da saia da mãe enquanto os outros se juntaram muito quietos num canto para tentar dormir e enganar a fome, todos menos Upsilamba que muito bem alimentado de ontem não conseguia sentir fome nem lamentar a falta de comida. O padrasto, também faminto, não deixou de notar a atitude do menino que o irritava profundamente e pegando na vara foi bater-lhe.

            Enquanto apanhava Upsilamba pensava nos sonhos que tinha à noite e nas pernas longas do pai a correr pela savana até lembrar do seu nome mágico que a fada lhe dera, começou a sussurrar bem baixinho para ninguém escutar – Upsilamba, Upsilamba, Upsilamba… – e a vara parou, não havia mais vara e o padrasto olhava espantado as mãos agora vazias. Ninguém nada entendeu e a mãe preferiu crer que nada aconteceu à achar o filho bruxo.

Warrior_of_the_Light_by_ahermin

            Daquele dia em diante sempre que se via em apuros, Upsilamba sussurrava seu nome secreto e as coisas se resolviam, nem sempre de uma maneira muito mágica, mas sempre se resolviam. Conforme Upsilamba crescia seu nome mágico ia parando de produzir efeitos, mas mesmo assim ele continuava a repeti-lo sem nunca perder a fé de que as coisas melhorariam. O nome dava-lhe forças e com isso ia ele mesmo melhorando o seu mundo.

            Quando se tornou guerreiro e teve de renunciar a seu nome de menino, escolheu Upsilamba como seu nome de homem. Sempre que estava com problemas ele o repetia e a solução aparecia.

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3 comentários sobre “Day 14 – Use elementos de fantasia

  1. Aaah, você tem razão em gostar dessa história! É realmente muito boa! E agora fiquei curiosa… O que significa Upsilamba?

    E eu amei a descrição da fada. Tão diferente do convencional! Confesso que estava imaginando mesmo algo próximo das fadas europeias, mas fiquei feliz de ter sido contradita.

    Gostei de como a história do menino se desenrolou, só me deu vontade de ler mais.

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