Day 05 – Inspire-se na sua música favorita: There Are Worse Things I Could Do – Grease

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            O sol invadiu o quarto cegando-a e suas têmporas latejaram como se para lembrá-la da noite passada, mas o que havia feito mesmo? Não conseguia se lembrar. Abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi uma pelúcia do Capitão Gancho ao seu lado na cama – Bom dia Hook, acredite já acordei com parceiros mais bizarros que você. – aquele definitivamente não era seu quarto, ela não colecionava mais pelúcias desde os onze anos quando suas “amigas” riram do Ursinho Carinhoso cor de rosa que ficava na sua cabeceira.

            Lola, a chamaremos assim para preservar sua identidade, olhou ao redor tentando lembrar-se de quem era aquela casa mesmo? Ah, da sua amiga… Ela tinha vindo pegar seu presente de aniversário adiantado. Sorriu lembrando-se da garrafa de tequila embrulhada com uma fita, de brincar de vira-vira, do entregador de cerveja e dos cigarros que levou. Fez uma careta, sua garganta estava mais seca do que nunca e com gosto de escapamento de automóvel, ressaca de cigarro era pior do que a de tequila. Saiu da cama se espreguiçando e foi até a cozinha tentando encontrar algo como café ou um pão e manteiga para amenizar a sensação de que morrera e se esqueceram de enterrar.

 Never_open_again_by_evenz           Nada, só água. E quente. Deu de ombros, não era como se existisse delivery de café da manhã e não ia comer um BigMac as oito da manhã.

            Tremia tanto que deixou derramar metade do copo no caminho até a varanda, talvez devesse vestir a calça e ir ao hospital tomar glicose… Melhor não, teria de se explicar. Explicar por que bebera uma garrafa de tequila sozinha. Por que fumara dois maços de cigarro completos. E as cervejas claro, não era à toa que estava se sentindo um lixo… Espera, isso não era da bebida não. Estava assim desde ontem, bebera para esquecer. Esquecer dos vinte e sete caras que pegara na última festa e de quem não lembrava rosto nem nome, esquecer que sua colega de apartamento dissera que ela não prestava, que era uma puta e que rapaz nenhum namoraria com ela por não se dar ao respeito! Puro despeito daquela crentelha! Só porque não era capaz de sair e conhecer rapazes sem achar que seria difamada, aquela idiota que passava os dias sonhando com algum Sr° Certinho e com medo de ser estuprada por algum garoto… Poderia falar sem parar das neuras de uma virgem para quem tudo, até sentir calor, era pecado mas a raiva não era da pobre coitada…

            Ouviu certa vez uma psicóloga falar na TV que as meninas buscavam homens com as mesmas características do pai e que, por isso, a filha de uma mulher agredida pelo marido acabaria passando pela mesma situação… Lembrou do ex-namorado que tinha passado um ano saindo com uma garota bissexual que o traía com outras mulheres e seu pai lhe veio à memória. Se ainda restasse algo na garrafa teria bebido, não queria lembrar dele! Não queria lembrar de quem dizia que ela não deveria ter nascido nem do tapa que ganhou no último domingo.

            – Cheguei “mamis”! – era sua amiga que, como um milagre, tinha ido para a faculdade de ressaca e chegava com duas marmitas do PF da esquina para o almoço; só o cheiro já lhe enjoava. Não queria comer, mas a outra alternativa era tomar um banho frio e ir para casa… Sozinha.

            Ficou, conversaram amenidades e relembraram das coisas que aconteceram durante a noite. Logo chegou a hora de arrumar sua bolsa e ir, sua “filis” tinha um plantão para dar e ela não queria ficar na casa da outra assim. Quem dera tivesse, mal saiu do elevador no seu prédio e o “Exército da Salvação” a esperava. Para chamá-la de alcoólatra, de puta e de possuída… Para falar que os porteiros e as velhinhas sem compromisso fofocavam sobre sua vida, falar que tinha de mudar e aceitar Jesus. Não entendia por que as pessoas se metiam na sua vida, seus problemas eram só seus. Fechou a porta, deixou-se cair na cama e só então chorou.

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            Podia ser muitas coisas e já fora mais do que muita gente. Já sonhou com príncipes encantados, com o garoto que puxava suas tranças no recreio, com o bonitão do terceiro ano, com o esquisito que sentava à sua frente e com o nerd que sentava atrás. Houve um tempo que não se importava, outro que era feia e tímida e agora não saía sem batom ou salto, afinal nunca se sabe. Nem sempre bebeu ou fumou nem costumava dançar e flertar. Fazia tudo isso na máscara que trajava hoje parecendo mais forte, mas as pessoas esqueciam que por não esperar o cara certo e deixar que fossem até final ela também podia sofrer e também podia chorar, mesmo que fosse baixinho ao ombro do seu travesseiro.

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