Mímicos Suicidas

Castaway_in_Stardust_City_by_AquaSixio

            Toda a cidade parou quando do alto do edifício pularam, mudos, juntos vinte e três mímicos e mudos caíram no asfalto fazendo um ruído mudo. Mudo, o mundo continuou a girar sem se importar… E mudo de seu quarto no vigésimo terceiro andar ele viu os vinte e três mímicos suicidas pularem junto mudos do mundo enquanto as crianças brincavam de mímica na sala do apartamento.

Do vigésimo terceiro andar ele viu a mímica muda do andar de uma jovem, viu colocar um perna na frente da outra balançando seus quadris como uma gazela desfilando pelas savanas, viu ela ser seguida por um musculoso e cabeludo rapaz que em sua mímica se mostrava um leão perseguindo sua presa… O leão corre atrás da gazela, a gazela corre do leão; os dois não se encontram ainda pois a agilidade e a fragilidade dela contra a força bruta e rudeza dele os deixavam equilibrados… Leão captura gazela, morde-lhe o pescoço tentando-lhe conquistar e ela morre, ele volta para sua caverna e deixa a caça para as leoas.

Um avião sobrevoa a cidade, mímicos fazem seus truques sobre suas asas; pessoas encenam mímicas em seu interior… Aeromoças de sorrisos falsos e forçados, passageiros cansados, controladores pirados, pilotos esgotados… E eles estão atrasados! Reuniões, festas, férias, compromissos, eles estão atrasados! Quem se importa com o aviso do piloto? Eles estão atrasados! Algo passa voando por uma das janelas, lembra uma miniatura do Harley, e leva embora os mímicos fazendo mímicas sobre as asas do avião. Ele observa de sua janela do vigésimo terceiro andar mais um avião cair em espiral pela noite do seu país, vê a lua continuar seu espetáculo e as estrelas contracenarem como se nada estivesse acontecendo, vê a mímica angustiada de pessoas sem vozes bradando por socorro! Tem pesadelos com mímicos voando sobre executivos com orelhas de coelho carregando enormes relógios e berrando: Estou atrasado!

A TV anuncia uma nova eleição, candidatos interrompendo a programação e a mímica do horário eleitoral invade as casas do país, corruptos imploram seu perdão dizendo que estão preocupados com a próxima geração! Filas e filas de pessoas em frente à tela brilhante, uma mímica chamada justiça com seu sorriso falso e seu olhos vendados golpeia a cabeça do honesto trabalhador. Ele passa pelos corredores da escola e vê mímicos seguindo a última moda, escutando a bandinha mímica do momento, professores repetem a mesma mímica de cem anos atrás. O truque de estar preso dentro de uma caixa invisível onde só ele vê as paredes e se joga contra elas, todos parecem mímicos em seu show no meio da rua em troca de uns trocados, jogados fora… Moedas de um centavo… Kaboom! Como num filme mudo se ouve a explosão, motivada por um mímico homem bomba que veio lá do Afeganistão… E voam para todos os lado mímicos com a chave do paraíso pendurada no pescoço esperando encontrar setenta mil virgens brancas como nuvens e etéreas como o sono.

O rádio berra no último volume dentro do ônibus lotado, pessoas por todo o lado, mímicos emburrados, suados, na linha 723… As buzinas caladas, mímicos por todo lado em uma avenida seguindo pelo infinito passando pela linha do horizonte, saltar antes do ponto final e se ver cercado pelos rostos mudos, sorridentes, dementes…! Tenta voltar, o ônibus já se chocou contra o pôr-do-sol  e continua seguindo ardente, derretido pela estrada de calor… O mundo já não faz sentido… Todos se tornaram mímicos? Ou ele ficou surdo?

SILÊNCIO

            O barulho da TV fora de sintonia invade o quarto silencioso, ele se lembra de alguém murmurar… Está tudo bem agora… Eles não podem entrar… Paredes brancas, imagens estranhas… Mímicos suicidas pulam do prédio em frente ao seu, o leão e a gazela, um avião cai sobre Copacabana, escola alvo de terroristas, ônibus incendiado… Tudo seria culpa desses artistas? Sofrer calado há mais de mil anos não é solução, ser, quem sabe, mais um rosto na multidão? Não precisa se preocupar, todo mundo agora tem um rosto igual ao seu… Pintura branca, traços negros, face sem expressão… Roupa colorida onde não bate um coração… Mímicos suicidas sem imaginação, no rádio sempre toca a mesma canção… Algum tempo em uma clínica de reabilitação e você já não precisa achar uma rima para um refrão…

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