Reminiscências dos Meus Vinte e Poucos Anos

Aos sete anos eu achava que quando completasse onze seria uma a-d-o-l-e-s-c-e-n-t-e, ou seja, seria praticamente uma adulta, teria peitões, seria magra e popular, arrumaria um namorado, dirigiria um carro, beberia, fumaria e sairia para me divertir com amigos todas as noite. Ah! E fumaria um baseado, apesar de aos sete nem saber direito o que exatamente era um desses.

Aos onze eu queria dar meu primeiro beijo. Me achava adulta e responsável, os outros eram todos crianças imaturas e guardei todos os meus brinquedos ou doei. E secretamente sentia falta de brincar com meus power ranger, cavaleiros do zodíaco, meu Hércules e minha Psilocke. Deseja fazer treze anos para ser oficialmente adolescente e aí realizar tudo o que eu sonhava em fazer aos sete.

Aos treze eu era sozinha. Vestia só preto, ouvia metal e gothic metal, acreditava que havia nascido gótica (ah, vai nessa), era anarquista, ateia  lia mangá e muuuuitos livros, escrevia poesia, tinha um blog e me achava muito feita. Eu fingia não me importar com o fato de que todo mundo me zoava e espera ansiosamente o ensino médio, pois achava que me tornaria bonita, conheceria gente nova e diferente, daria meu primeiro beijo e seria adulta. Respeitavelmente adulta.

Aos quinze… Desisti das pessoas, eu era sozinha e não mais procurava não o ser. Aos quinze  quase fui jogada em um latão de lixo por um “colega” de turma que tinha o dobro do meu tamanho, passava as aulas lendo, dormindo ou escrevendo poesias e contos em uma agenda que guardo até hoje. Meus poucos amigos eram todos virtuais e a noite costumava chorar até dormir ou inventar histórias na minha cabeça para fingir que pertencia a algum lugar. Ainda usava só preto e adotei roupas largas e masculinas, havia um all star velho que nunca saía do meu pé e usei o mesmos jeans levis até ele praticamente se tornar uma segunda pele. Era ateia, blasé, gótica, irônica e cética; sonhava ainda é claro. Achava que a faculdade resolveria todos os meus problemas, afinal lá teria pessoas inteligentes, diferentes… Alguém que me entendesse e, talvez, gostasse de mim. Acho que nunca li tanto quanto nessa época, afinal os livros eram o único mundo que me importava.

Aos 17, sonhei com o diabo e batemos um papo. Na verdade discutimos minha falta de fé, ele rasgou meus livros e me apavorou… Voltei a “acreditar” em deus. Logo iria em bora daquela cidade mesmo, então fiz as pazes com minha mãe, comecei a deixar o preto de lado e fiz alguns amigos. A faculdade e os vinte anos estavam logo ali…

Aos 19 eu morava sozinha em outra cidade, fazia faculdade, namorei, embriaguei, festejei, dancei, provei de tudo um pouco e pouco de tudo que me fora antes negado. Troquei de mascaras a cada piscar de olhos, beijei todos os lábios que pude já que antes isso me fora impossível. Então… Me perdi. Completamente perdida de mim mesma deprimi sem opção ou, talvez, por excesso.

Aos 20 e poucos… Duvidei se realmente queria ter uma profissão careta, de terno e maleta com salário fixo no fim do mês e trabalhar todo dia de nove às seis. Gostaria era de poder dormir ao raiar do dia e acordar ao meio-dia, de fazer música mesmo sem saber um acorde sequer, achei que deveria ter prestado vestibular para jornalismo, artes ou então filosofia. Qualquer coisa mais mutável e bela do que a letra preta miúda na folha parda de papel bíblia.

Aos vinte e poucos minhas amigas que já namoravam há anos e eu achava absurdo resolveram casar, noivar ou ir morar com o namorado. E eu? Eu descobri que não quero casar, pelo menos não tão cedo. Sim, acho cedo, acho muito cedo para viver o resto da minha vida com um homem só (pelo menos em romântica tese), para dividir meu espaço pessoal com outro ser e a mais secreta parte da minha intimidade partilhar! Mal consegui declarar minha independência em relação a minha mãe e já vou me prender a um homem? Não me sustento sozinha e vou ter de fazê-lo conjuntamente? Não muito obrigada, fiquem com esses sonhos vendidos pela Disney para vocês, mas eu reconheço que não tenho real maturidade ainda para casar. E nem vocês, eu acredito.

Sabem uma coisa? Mal comecei a me descobrir, a me conhecer, a tornar-me propriedade de mim mesma e já confundir-me com outro humano?! Tenho ainda tanto para viver por mim mesma que o casamento se assemelha a morte.

Não digo nem à respeito da minha tenra infância, mas aos onze anos… Aos tolos onze anos eu tinha tantas certezas inabaláveis sobre quem eu era, quem eu queria ser e do que queria fazer e agora… Aos vinte e poucos descobri que a certeza é minha inimiga.

Se aos onze queria casar aos 25, hoje nem pensar! Descobri que na verdade é preciso se perder para ser capaz de se encontrar! Que tive de deixar cair todas as máscaras que carregava, abandonar qualquer esperança e guardar os sonhos em uma gaveta para serem analisados mais tarde. Precisei ser nada para, finalmente, abrir as portas para o tudo.

Todos acham que aos vinte e poucos conquistamos todas as certezas da vida, sabemos quem somos e o que queremos… Ledo engano, a certeza é tão infantil e é a dúvida que nos torna adultos. A certeza não cria nada de novo, certeza é diploma “sério”, aprovação em concurso público, casa própria, casamento, plano de saúde e fundo de aposentadoria privada.

Aos vinte e poucos descobri que não quero nada disso e que, na verdade, nunca quis. Quero mudar de apartamento e cidade sempre que enjoar, esquecer de pagar a conta de energia e jantar à luz de velas, pegar um carro e viajar pelo interior do país sem destino certo.

Aos vinte e poucos sou vento, a certeza não é para mim. Então, quem a quiser que a pegue e faça o que bem entender desde que seja feliz, eu fico com o incerto que é o que me cabe.

Anúncios

Um comentário sobre “Reminiscências dos Meus Vinte e Poucos Anos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s